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Caminhos Mil

"É preciso voltar aos passos que foram dados, para os repetir, e para traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre. O viajante volta já.", José Saramago

Caminhos Mil

"É preciso voltar aos passos que foram dados, para os repetir, e para traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre. O viajante volta já.", José Saramago

19.04.23

PR1 SPS Rota de Manhouce


Emília Matoso Sousa
Data: 22 de fevereiro 2023
O  percurso
14,4 Km (fizemos 17,76)  |   Circular |   641 m desnível acumulado   |   Grau dificuldade: moderado
Pontos de interesse
Ponte Romana; Poço da Silha; Ribeira da Vessa; Gestosinho, Bondança; Salgueiro; Lageal; Igreja Matriz de Manhouce
Localidade
Manhouce | Freguesia do concelho de São Pedro do Sul, distrito de Viseu.
Observações: Trilho extremamente bem sinalizado e limpo; reclama muito esforço de subida e descida em piso muito desconfortável. 
 
Afinal, a melhor maneira de viajar é sentir. Sentir tudo de todas as maneiras. Sentir tudo excessivamente. Porque todas as coisas são, em verdade, excessivas.”, Álvaro de Campos, in Livro de Versos Fernando Pessoa
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A Rota de Manhouce leva-nos por um percurso de altitude de uma beleza paisagística que, do primeiro ao último quilómetro, nos surpreende a cada passo. Desenvolve-se em pleno maciço da Gralheira, um conjunto montanhoso formado pelas serras da Arada, Freita, Arestal e São Macário, abrangendo os distritos de Viseu e Aveiro. É nesta transição entre os dois distritos que se situa Manhouce. Ainda geograficamente falando, estamos na região de Lafões, território do centro do país situado na região hidrográfica do rio Vouga, que abrange os concelhos de São Pedro do Sul, Oliveira de Frades e Vouzela. São daqui as afamadas vaquinhas da raça arouquesa, ágeis e apreciadoras dos pastos das montanhas, que tanto gostam de trepar. Esperávamos, e queríamos muito, ser surpreendidos por algumas! 
 
Sobre Manhouce
Como curiosidade histórica, do tempo em que os romanos por lá andaram, resta uma ponte, cuja construção primitiva oscila entre os séculos II a.C. e I d.C. Estava integrada na Estrada Imperial, Via Cale, que ligava Emerita Augusta (Mérida) a Bracara Augusta (Braga), passando por Viseu. No século XIX, a estrada era ainda utilizada por almocreves e comerciantes, por ser a principal via de acesso do interior (Viseu) ao litoral (Porto), um percurso de 95 quilómetros. Por isso mesmo, passou a ser conhecida por Estrada dos Almocreves ou do Peixe. Manhouce, sensivelmente a meio caminho, era local obrigatório de pernoita. Graças a esses viajantes, a aldeia foi absorvendo, sobretudo ao nível de costumes e cantigas, traços de outras culturas, designadamente as do litoral.
 
Isabel Silvestre, GNR, e a Pronúncia do Norte
Os trilhos pedestres mostram-nos muitas localidades de que nunca ouvíramos falar. Não é o caso de Manhouce, que ganhou notoriedade graças à Pronúncia do Norte, canção dos GNR de 1992. E porquê? Porque Rui Reininho convidou para a cantar com ele a manhoucence Isabel Silvestre, nome maior da música popular portuguesa, embaixadora dos Cantares de Manhouce e grande dinamizadora para a manutenção e divulgação desta tradição. Atualmente, trabalha para levar esta forma de cantar a Património Cultural Imaterial da Humanidade, sob a chancela da UNESCO. O agradecimento do seu povo está imortalizado numa enorme placa de granito com a sua imagem junto ao posto de turismo.

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Um canto polifónico de mulheres a três vozes
As cantigas de Manhouce são um caso sério no rico panorama de cantares do nosso Portugal. Contam apenas com vozes femininas e, apesar da sua origem numa sociedade agrária tradicional, a polifonia a três vozes (baixo, raso e riba) confere a este canto uma complexidade difícil de explicar. São as mulheres as fiéis guardiãs destas modas que foram notícia, pela primeira vez, em 1938, quando Manhouce concorreu à iniciativa Aldeia mais Portuguesa de Portugal. Foi aí que ganharam o reconhecimento de etnomusicólogos e folcloristas como Artur Santos, Armando Leça, Fernando Lopes Graça e Michel Giacometti, que lhes deram honras de Cancioneiro Nacional Português. 
 
O trilho
Vale a pena percorrer as ruas desta aldeia que, em 1938, esteve quase a ser a aldeia mais portuguesa de Portugal. Casas de pedra muito antigas, mas maioritariamente bem conservadas. Vestígios de presença de gado e outras marcas de ruralidade denunciam a principal atividade dos seus habitantes. À porta de muitas habitações, pequenas placas de xisto identificam as famílias que as habitam. As placas de pedra são, aliás, muito utilizadas na sinalética da aldeia. No largo principal, a Igreja Matriz, que terá servido de hospital de sangue durante as invasões francesas, merece uma visita. O seu interior é bastante simples, mas tem um sóbrio teto de madeira que faz um contraste interessante com o bonito painel de azulejos do altar-mor.

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O trilho parte da escola primária e, logo aí, somos aconselhados por alguns locais a realizá-lo no sentido anti-horário. Apesar de a maior parte do percurso ser ora em subida, ora em descida, não é indiferente o sentido em que se faz, sendo o anti-horário um pouco mais suave. 
Saímos de Manhouce e entramos imediatamente em terrenos agrícolas, com os seus pitorescos muros antigos cobertos de musgos e líquenes. Sempre a subir, sobre ‘passadeiras’ irregulares de granito, tipo calçada romana, vamos atravessando as várias aldeias que povoam o maciço da Gralheira.
 

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Aldeias de altitude, habitadas por gentes resilientes, vencedoras de tantas batalhas contra as durezas do meio ambiente e detentoras da criatividade necessária para extrair sustento de terras quase impenetráveis. Habilmente encaixadas no sobe e desce das encostas e enquadradas em cenários quase irreais, o mínimo que se pode dizer destas aldeias é que são encantadoras. Apesar da sua simplicidade. Apesar da sua arquitetura maioritariamente vernacular, onde monumentos ou edifícios artisticamente elaborados não têm lugar. São simples, são práticas, são genuínas.
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Ao percorrê-las, sentimo-nos fora do nosso tempo, mas sentimo-nos bem. Lageal, Malfeitoso, Salgueiro, Bondança, ou Gestosinho são as que constam do roteiro de hoje. Não consigo imaginar como será viver em locais tão remotos e pergunto-me sempre o que terá levado aquelas povoações a instalarem-se em sítios tão improváveis, onde hoje já é possível chegar por estrada (pelo menos a alguns), é certo, mas não antigamente. 
 

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Paisagens agrícolas ancestrais
Diz o provérbio, e com fundamento, que a necessidade aguça o engenho. Que o digam os habitantes das aldeias da Gralheira, quando confrontados com terrenos tão inclinados! Como iriam cultivá-los? Surgiu, assim, o cultivo em socalcos, ou em terraços, uma técnica agrícola ancestral, que consistia no parcelamento de rampas niveladas. Um processo difícil que reclamava muito trabalho e mestria, já que tinham de se escavar os solos, deslocar as terras e, por fim, estabelecer os aterros onde se cultivava. Proporcionam, hoje, paisagens únicas, muito bonitas, mas que devem, acima de tudo, fazer-nos pensar em todo o esforço humano que encerram. 

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A água é uma constante no caminho. São vários os cursos de água que vamos atravessando, quase sempre por cima das nossas tão apreciadas poldras. Os caminhos das pedras… É sempre uma animação, pois nunca sabemos se nos calha uma pedra mais escorregadia ou se teremos de os atravessar a vau. Mas com a ajuda dos bastões e algum equilíbrio tudo se consegue atravessar. 

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Pequenas manchas florestais de bétulas, carvalhos e castanheiros vão decorando a paisagem entre aldeias. Apesar de despidas, por ser inverno, proporcionam imagens muito bonitas. Árvores maravilhosas, não apenas esteticamente, mas também pelo papel que desempenham no equilíbrio do ecossistema. Infelizmente, as nossas florestas têm perdido muitas árvores autóctones, estando algumas em extinção. O azevinho é um desses exemplos, pelo que foi com surpresa e agrado que, em Bondança, passámos por uma espécie de pequena reserva dessas árvores tão natalícias. Coisa rara!
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À medida que vamos subindo, vamos assistindo à mudança do cenário que nos envolve. As árvores começam a rarear, dando lugar a vegetação mais rasteira, típica de terras mais altas. A paisagem torna-se mais austera e agreste, proliferam as formações graníticas, ou caos graníticos, expressão que deve ser rigorosamente tomada ao pé letra, já que se refere a áreas com amontoados de rochas quebradas ou de forma arredondada organizados de forma… caótica. É o tipo de imagem que nos remete para alguns filmes de ficção científica de antigamente. É a montanha a revelar todo o seu esplendor!
 

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As ‘ágeis’ vacas arouquesas é que não apareceram, salvo duas que pastavam em propriedade privada, mas nós preferimos vê-las em terreno livre. Mas andavam por ali! Disso havia muitas ‘provas’ espalhadas pelo caminho. Também não nos apareceu nenhum lobo ibérico, apesar de este ser também o seu território.
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Atravessamos a última destas aldeias, Gestosinho, onde restam ainda alguns espigueiros, resquícios de um tempo em que as práticas comunitárias eram comuns. Dois habitantes locais trabalham o seu pedaço de terra e dirigem-nos algumas palavras. Informam-nos de que a partir dali é sempre a descer até Manhouce. Menos mal! Só não nos alertaram para o grau de inclinação da descida que nos esperava… nem para o estado deplorável do piso… 
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Para já, estamos em pleno planalto, o piso é plano e há que usufruir desta breve trégua. Segue-se um breve trajeto em estrada asfaltada, a qual nos conduz a um desvio para um caminho florestal. Sim, voltaram as árvores. Carvalhos, castanheiros, pinheiros…

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Encontramo-nos a uma altitude que nos dá acesso a vistas panorâmicas maravilhosas, em que montanhas e vales se sobrepõem tornando-se quase transparentes consoante a distância a que se encontram. A urze começou já a aparecer e há manchas lilases a colorir as encostas. Urze ou torga, a resistente planta que sobrevive nas rochas das montanhas e que inspirou o escritor Miguel Torga na escolha do seu pseudónimo. Consigo entender a inspiração! Vistas deslumbrantes justificam uma paragem e foi o que fizemos, como que antecipando o que nos esperava.

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Lá muito em baixo, já se vislumbra o casario de Manhouce. Vamos iniciar a descida. Longa, íngreme, piso extremamente perigoso, com sulcos fundos e irregulares, pedras e cascalho solto. Toda a atenção e cuidado em níveis máximos. O impacto nos joelhos a fazer-se sentir é o preço a pagar pelas maravilhas que vamos deixando para trás. Uma placa de lousa encostada à vedação de uma propriedade informa, não sei se por ironia de algum brincalhão ou por algum motivo perdido no tempo, que estamos na Estrada Real. Vá lá saber-se porquê? Ainda se fosse ‘irreal’... Terá existido ali algum caminho romano?

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A dolorosa descida reserva-nos ainda um brinde, a chamada pièce de résistance: um amontoado de blocos de granito, em jeito de obstáculo, que temos de ultrapassar com recurso aos quatro apoios. Vencida mais uma barreira, e estamos de novo em terra firme e segura. Uma estradinha asfaltada, um bálsamo para os nossos massacrados pés!

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Quase de seguida, entramos de novo em caminho florestal, por sinal, muito aprazível e com um belíssimo tapete feito de folhas castanhas das árvores. E chegamos a mais uma paisagem verdadeiramente cinematográfica: a ribeira da Vessa, onde se encontra o Poço da Silha com as suas águas cristalinas de tonalidade quase turquesa. As quedas de água e a fantástica galeria ripícola compõem um quadro difícil de descrever. Se fosse verão, apetecia mergulhar. 

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Estamos quase no final, só falta uma ‘subidinha’. Atravessamos a ribeira por uma pequena ponte de madeira e subimos até à estrada junto à ponte sobre a ribeira de Manhouce. É daqui que se pode observar a ponte romana, bem como azenhas que, em tempos, aproveitaram a força motriz daquelas águas.

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Este é um trilho que ficará nas nossas memórias pela sua extrema beleza e pela riqueza, variedade e espetacularidade das paisagens. Terminámos com a sensação boa de que muito ficou por ver. Manhouce é muito visitada por causa dos seus poços, os quais estão localizados no troço mais alto do rio Teixeira, abundante em quedas de água e poços (piscinas naturais) esculpidos nas rochas pela força das águas. Os mais conhecidos são o Poço Negro, o da Silha e da Barreira, e o da Gola. O rio Teixeira, afluente do Vouga, é considerado um dos mais bem conservados e menos poluídos rios da Europa, e um dos mais belos rios de montanha com vales apertados, escarpas e com as suas lagoas e poços de águas cristalinas e puras. Faz parte, naturalmente, da Rota da Água e da Pedra da iniciativa Montanhas Mágicas. Esta é uma zona a ser explorada com atenção!

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