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Caminhos Mil

"É preciso voltar aos passos que foram dados, para os repetir, e para traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre. O viajante volta já.", José Saramago

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"É preciso voltar aos passos que foram dados, para os repetir, e para traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre. O viajante volta já.", José Saramago

10.05.24

Passadiços do Mondego


Emília Matoso Sousa
3 janeiro 2023
 
O percurso | 11,7 Km | Desnível acumulado 600 m | Linear | Moderado/ Difícil
 

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Já não é novidade, mas é ainda recente esta atração turística que confere ao município da Guarda novos argumentos para uma visita a algumas das suas maravilhas, até agora, escondidas e inacessíveis. Falo do percurso pedestre dos Passadiços do Mondego, inaugurados em novembro de 2022, e dos seus 12 quilómetros de puro deleite paisagístico desenvolvidos em pleno Parque Natural da Serra da Estrela e no Geopark Estrela, reconhecido pela UNESCO, desde julho de 2020, como Geopark Mundial. Com início na Barragem do Caldeirão e término na Aldeia de Montanha de Videmonte (sentido recomendado), o percurso passa pelas localidades de Trinta e Vila Soeiro, sempre com a companhia irrequieta do rio Mondego e seus afluentes. Estamos em território montanhoso, pelo que a corrida do rio, por entre rochedos e penhascos, é tudo menos tranquila. Dos 12 quilómetros, apenas sete são feitos em estruturas de madeira, sendo os restantes cinco percorridos por caminhos já existentes. Do mal, o menos, digo eu, que nutro alguma resistência em relação à construção dos quilómetros e quilómetros de passadiços que, ultimamente, têm 'invadido' os territórios naturais do nosso país. Mesmo reconhecendo que sem eles o acesso a certos locais seria impossível, não consigo deixar de os considerar elementos 'ruidosos' ou fora de contexto. Além disso, em alturas que atraem multidões, o que se pretende que seja uma experiência relaxante e contemplativa pode tornar-se bastante penoso. Posto isto, decidimos fazê-los no início de janeiro, em dia de semana e passada a época festiva. De facto, tivémos os passadiços quase exclusivamente para nós, mas o gelo que, durante a noite, se formara sobre as estruturas de madeira, não nos permitiu iniciá-los na Barragem do Caldeirão, que é o sentido recomendado. O perigo de escorregar era grande, segundo nos foi dito pelos responsáveis. Iniciámo-lo, portanto, em Videmonte, convictos de que o ponto de partida seria mais ou menos indiferente. Como nos enganámos!

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Videmonte está mais exposta ao Sol, pelo que a película de gelo já começou a derreter. O dia está frio, mas luminoso, graças ao nosso afamado Sol de inverno. Nas partes mais sombrias, as madeiras dos passadiços estão cobertas de branco, o que reclama particular cuidado para não escorregar nos degraus, mas que confere uma beleza adicional. O início do trajeto é em descida. Não contámos os degraus, mas são muitos, embora suaves. De um lado e do outro, as encostas da serra vão absorvendo a nossa atenção, apesar de vestidas com cores da estação fria. Mas a serra é linda em qualquer estação! À nossa direita, num plano bastante inferior àquele em que nos encontramos, um curso de água corre veloz, produzindo um barulho que corta o silêncio que nos rodeia. Paramos para o contemplar. Avançamos um pouco e avistamos as ruínas de uma construção de granito que, segundo painel informativo, é o que resta do Engenho dos Carriços, uma antiga fábrica de lanifícios, com unidades de cardação, fiação e tecelagem. Este será o primeiro exemplar de um património industrial, dos vários que vamos encontrar ao longo do percurso, testemunhos de um passado fabril pujante, na área do têxtil. Considerados património cultural do concelho da Guarda, estes engenhos e edifícios, servidos por açudes e levadas de água, são hoje parte integrante de um roteiro pela Arqueologia Industrial da Beira Interior.   
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A paragem seguinte é no Geossítio Metassedimentos de Videmonte. Sem entrar em detalhes, geossítios são locais onde há formações geológicas (rochas, fósseis, etc) relevantes para o estudo da geologia. Na Serra da Estrela existem alguns. Este, por onde agora passamos, tem mais de 541 milhões de anos. É obra! Os entendidos no assunto, olham para aquelas rochas sedimentares e conseguem 'ler' nelas informação que lhes permite traçar a história das várias transformações que a superfície da Terra sofreu através dos tempos. Não é o nosso caso, que apenas nos impressionamos com o dramatismo que elas conferem à paisagem. 

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Sempre por passadiço, chegamos à primeira ponte suspensa, que atravessamos, a que se segue um trajeto feito em terra batida. O piso pode até ser menos confortável, mas é muito mais agradável caminhar fora dos passadiços. À distância, começamos a ver outras ruínas, as do Engenho Grande (Fábrica de Marrocos), já na freguesia dos Trinta. A dimensão da construção faz juz ao nome.

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Foi a primeira fábrica de lanifícios do distrito, tendo sido construído em 1850, com equipamentos de grande qualidade e com capacidade e competências para executar tudo o que tinha que ver com o fabrico da lã. Em 1851, participa na Exposição Universal de Londres, com um cobertor de papa, produto natural da região da Guarda. Em 1957, por ter mudado de dono, passou a chamar-se Fábrica de Marrocos. Apesar do estado de degradação, surpreende pela sua imponência. Mais de um século depois, é verdadeiramente difícil imaginar a movimentação que por ali terá havido. Sem estradas e com caminhos quase impenetráveis, como seria feito o transporte das mercadorias? E dos trabalhadores, já agora?

E por falar em cobertores de papa...  
Grossos, pesados, quentes... quem não se lembra de ver um destes cobertores em casa dos avós? Pois  foi ali, em plena Serra da Estrela, no distrito da Guarda, nas aldeias de Trinta, Meios e Maçainhas, que nasceu este famoso agasalho feito da lã grossa e comprida da ovelha Churra Mondegueira, autóctone da Beira Alta. Embora a sua origem seja muito anterior, foi só no século XVIII, no tempo do Marquês de Pombal, que a sua produção atingiu o apogeu, altura em que quase todas as casas havia um tear. De confeção integralmente artesanal, estes cobertores eram pesadas, impermeáveis, com um cheiro a lã muito caraterístico, e quentes, eram os melhores amigos dos invernos rigorosos de antigamente num tempo em que ainda não havia edredons. Eram e ainda são, apesar de terem estado à beira da extinção, devido ao encerramento das fábricas, bem como ao envelhecimento e desaparecimento dos seus executantes. Felizmente, o gosto por produtos tradicionais tem vindo a ganhar terreno e, atualmente, há novos artesãos, de cujas mãos continuam a sair estas genuínas mantas. E é em Maçainhas que existe a última fábrica privada a produzi-las, a Fábrica de Cobertores José Freire (fundada em 1966). E porque todo o cuidado com as imitações é pouco, a par do registo do nome 'Cobertor de Papa' no Instituto Nacional de Marcas e Patentes, foi também criada a Associação Genuíno Cobertor de Papa. Prova da importância que o produto tem na região é a realização, em setembro, de um festival em sua honra, recheado de atividades e muita animação. Como nota final, o nome do cobertor deve-se a uma das fases da sua confeção em que é mergulhado numa 'papa' de água e terra. 

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Avançamos e vamos passando por sucessivos engenhos, todos do início do século XX, como o da Canada, o dos Fonsecas e o do Pateiro. Quantos cobertores terão sido ali produzidos? Quantas toneladas de fios de lã terão saído dali para as fábricas da região?

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A certa altura, passamos por um espaço que promete terapias naturais e artísticas, a Quinta Dionísio. Ideal, certamente, para quem quiser fazer um retiro em plena natureza. Uma pequena cabana com aspeto de abrigo chama a nossa atenção e um letreiro a prometer café convida-nos a uma paragem. Paramos e trocamos dois dedos de conversa com o seu proprietário, enquanto tomamos o café e apreciamos as velas artesanais de cera, muito bonitas, tanto assim que não resistimos e compramos uma. Um senhor muito simpático, apicultor e amigo da natureza e do ambiente que, com resiliência, prossegue a sua atividade, apesar dos danos sofridos com os recorrentes incêndios que. 

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Seguimos caminho, passando pelas colmeias do senhor do 'café' e atravessando outra ponte suspensa. Ao caminhar, íamos trocando algumas reflexões sobre aquilo que íamos observando e sobre como, ali, tudo se conjuga e articula numa dinâmica de equilíbrios em que o rio é elemento agregador e base de subsistência. Ou sobre a forma como o homem, sabiamente, ocupou e moldou aquelas encostas montanhosas, íngremes e pedregosas, para delas tirar o sustento, construindo socalcos e ganhando terrenos para agricultura e retenção de águas. Restos de casas de habitação e de armazenamento, de engenhos, de pisões, de moinhos... tudo isto nos traz os ecos de uma vida que, aos olhos de hoje, quase nos parece impossível. Percebe-se que a pastorícia era atividade dominante, ou não fosse esta a 'pátria' do Queijo da Serra. E a indústria têxtil mais não foi do que uma forma de aproveitar a lã das ovelhinhas. Mas não fora o Mondego e nada se teria passado ali, se bem que muito do seu aproveitamento teve de ser feito à custa de açudes e levadas, processos usados para desviar a água, encaminhando-a para onde ela fosse necessária. A mais impressionante é a levada do Pateiro que, com dois quilómetros de extensão, forma uma queda de 45 metros que alimenta o movimento das turbinas da Central Hidroelétrica do Pateiro, por onde também passamos. Deixamo-nos levar pela levada e, mais uma vez, nos deslumbramos com as 'tecnologias' de um passado que, não sendo tão distante assim, está a anos luz das inovações que atualmente nos rodeiam. Um passado que nos dá pistas sobre o duro caminho que o homem trilhou para chegar ao ponto em que hoje estamos.

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Central Hidroelétrica do Pateiro
Foi inaugurada em 1 de janeiro de 1899, foi a segunda central a ser construída em Portugal, e a primeira da Beira Interior. Graças a ela, Guarda foi a terceira cidade nacional, e primeira das Beiras, a ter uma rede de iluminação elétrica pública fornecida por uma central hídrica. Como curiosidade, a aldeia dos Trinta, que pertence às Aldeias de Montanha, foi a primeira, no distrito, a ter luz elétrica, o que lhe permitiu ser um importante polo da indústria dos lanifícios. Chegou a ter sete fábricas a laborar. 

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Chegamos ao Geossítio Escombreiras e Cascalheiras do Alto Mondego, onde são ainda evidentes marcas da exploração mineira que ali se realizou, com maior incidência, nas décadas de 50 e 60 do século XX, para extração de estanho e volfrâmio. A atividade mineira deixa cicatrizes profundas na paisagem, sendo ainda visíveis vestígios de alguns dos filões, bem assim escombreiras que se misturam com cascalheiras. 

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Seguem-se as ruínas da Fábrica Velha e da Fábrica Nova, separadas por cerca de um quilómetro. Sempre rodeados por uma paisagem montanhosa, continuamos a caminhar, embalados pelo barulho das águas correntes do rio. Águas que dão vida a todo um ecossistema, em que cada espécie de fauna e de flora sabe exatamente qual é o seu papel, tantas vezes perturbado por ação de mãos menos cuidadosas. Os grandes inimigos destes redutos naturais são, infelizmente os incêndios que, quando ali chegam, dificilmente se conseguem dominar, em virtude da inacessibilidade do território. É nesta zona ribeirinha que prolifera o colorido guarda-rios, uma ave aquática que se identifica por ter dorso e asas azuis e peito e ventre cor-de-laranja, e que se alimenta, principalmente de peixes. Não nos cruzamos com nenhum, a não ser o que foi pintado por Miles, artista plástico natural da Guarda, nas ruínas do engenho da Fábrica Nova. Neste local é, ainda, visível o que resta de um pisão. Um pouco à frente, chegamos ao território da Vila Soeiro (integrada na União de Freguesias de Mizarela, Vila Soeiro e Pêro Soares), uma aldeia também designada por Cabo do Mundo, por não ter saída para quem lá chega de carro. Todas estas localidades podem ser visitadas, caso tenhamos tempo e disposição para fazer os necessários desvios.

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Pontos de interesse não faltarão, nomeadamente, património religioso e outras marcas históricas. Ficará para outra oportunidade, até porque no local onde nos encontramos há património geológico suficiente para nos 'entreter' os sentidos. Preparamo-nos, agora, para atravessar o Mondego, já na 'reta' final do percurso, atravessando a ponte de Mizarela, entre as localidades de Mizarela e Pêro Soares. Construída integralmente em granito, esta ponte medieval, acredita-se, terá sido edificada sobre outra do tempo dos romanos.

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A partir daqui, vai ser sempre a subir. E que subida! Ao longe, o que se vê é uma imensa e assustadoramente íngreme escadaria de madeira que trepa pela encosta que vamos ter de subir até à barragem do Caldeirão. Assustadora pela quantidade de degraus que, antevemos, nos esperam. Agora, sim, começamos a perceber por que motivo o sentido aconselhado é a partir do paredão desta barragem. Primeiro, uma subida bem rasgadinha em terra batida.

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Finalmente, a grande prova à nossa resistência. O aviso que antecede a subida não engana: 585 metros de subida, praticamente, de um só fôlego. Grau de dificuldade: difícil. Pudera! Mais de 700 degraus impressionam qualquer um. No início, ainda tentei contá-los, mas acabei por desistir, para poupar energias... Só soube o número de degraus quando, no final, perguntei a um dos funcionários. Não é fácil, mas cada paragem que vamos fazendo, vai-nos deslumbrando com vistas incríveis, cada vez mais ampliadas à medida que ganhamos altitude. A 'pedra de toque' estava guardada para o fim. É justo que tenhamos qualquer compensação pelo esforço físico despendido. A Cascata da Ribeira do Caldeirão, também conhecida por Cascata Rosa, até há pouco tempo considerada "o segredo mais bem guardado de Pêro Soares". Mas isto era antes dos passadiços. Agora, está acessível a todos, bastando fazer um pequeno desvio de 100 metros. Com uma queda de água com cerca de 50 metros de altura e um poço com 19, é de uma beleza indescritível, o que torna o desvio imperdível. Todo aquele recanto é mágico e maravilhoso. E foi reconciliados com aquela infernal escadaria que chegámos ao topo, mais uma vez, com a sensação de missão cumprida.

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Chegados àquele ponto, temos duas opções: ou vamos de táxi para o local onde deixámos o carro (no nosso caso, Videmonte), ou voltamos a pé, pelo mesmo caminho, repetindo os 12 quilómetros. Sendo inverno, e prevendo que começasse a escurecer antes do final, optámos por ir de táxi. Não sei como será em alturas de grande afluência, mas, sem outras pessoas à espera, foi muito rápido. Relembro que o sentido recomendado é a partir do pórtico da barragem do Caldeirão, como forma de evitar os infindáveis degraus da subida final. Para quem não quiser/puder caminhar muito, há pórticos de entrada nas várias aldeias que o percurso ladeia, que permitem caminhadas mais curtas. Como nota pessoal, penso que será preferível fazer estes passadiços nas estações mais frias, desde que não chova ou que não haja gelo ou neve, tendo em conta a inexistência de sombras. Além disso, não haverá tantas pessoas a circular, permitindo que se usufrua de toda aquela beleza sem confusões.  Uma nota final: os bilhetes são exclusivamente adquiridos online, o seu custo é meramente simbólico e há limites ao número de caminhantes.

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