24 de maio 2024
Variante Espiritual do Caminho de Santiago
Hoje, vamos sair do Caminho Central Português e, em vez de rumar a Caldas de Reis, rumamos a Armenteira. Isto porque vamos percorrer a Variante Espiritual do Caminho, que une o Caminho Central à Rota Traslatio, também conhecida como Variante d'O Salnés (nome da comarca que percorre), ou Rota do Mar de Arousa e do Rio Ulla. Trata-se de uma rota alternativa, dentro do Caminho Central Português, constituída por três etapas, com início em Pontevedra e fim em Pontecesures, onde retomaremos novamente o Caminho tradicional. A particularidade desta variante é que a última etapa é realizada de barco, pelas águas da ria de Arousa, primeiro, e, finalmente, pelo rio Ulla. Por isso também se lhe chama Rota Jacobea marítimo-fluvial. Esta etapa também pode ser percorrida a pé, mas (geralmente) só o faz quem 'perde' o barco. E é espiritual porquê? Porque pretende recriar a chegada à Galiza da barca de pedra que, no ano 44 d.C., transportou os restos mortais do Apóstolo Santiago Maior, que tinha sido decapitado em Jerusalém. É, por isso, considerada a origem de todos os Caminhos. Já agora, diz-se que a Barca não tinha qualquer tripulação e que terá sido guiada pelos anjos e por uma estrela, até atracar em Iria Flavia, hoje Padrón. Enfim, as crenças de cada um são as crenças de cada um... Talvez seja essa a razão pela qual se associe o Caminho de Santiago à Via Láctea.
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1ª Etapa da Variante Espiritual - Pontevedra a Armenteira | 24 Km
A saída de Pontevedra é pela Ponte do Burgo, e os dois primeiros quilómetros são![armenteira00 (1).jpg]()
coincidentes com o Caminho Central Português tradicional. A bifurcação está bem sinalizada e, virando para a esquerda, aí vamos nós rumo a Armenteira, enquanto a maior parte dos peregrinos segue na direção oposta. O fundo azul das setas amarelas que nos orientam passa, agora, a branco. A paisagem é predominantemente rural e assim se mantém até Poio, onde o destaque vai para o seu monumental mosteiro - San Xoán de Poio - considerado um dos maiores tesouros beneditinos da Galiza e casa de uma das maiores bibliotecas monásticas de Espanha. Digno de nota é, também, o gigantesco espigueiro (hórreo, na versão galega) na envolvente exterior que, com 123 metros de comprimento, é um dos maiores em toda a Galiza. Tal dimensão é um bom indicador da capacidade financeira que o mosteiro terá tido em tempos não muito remotos. Com muita pena, não o visitámos, por falta de tempo.
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Caminhamos cerca de três quilómetros e chegamos a Combarro, uma vila piscatória medieval situada na margem norte da ria de Pontevedra. Antes de entrar na vila, no Parque da Memória, projeto do argentino Adolfo Pérez Esquivel, Prémio Nobel da Paz, em 1980, e filho adotivo de Poio, seis monolitos escultóricos, realizados pela Escola de Canteiros de Poio. A obra assume-se como um culto à memória, à emigração dos cinco continentes e à paz. Avançamos e, desde logo, percebemos por que motivo Cambarro foi declarada "conjunto de interesse artístico e pitoresco de caráter nacional".![armenteira7.jpg]()
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A sua localização privilegiada sobre a praia do Padrón, garantia de vistas deslumbrantes para a ria, dá uma ajudinha, mas o que verdadeiramente a torna única é a quantidade de espigueiros situados em plena orla marítima. No total são 39, dos 68 existentes na localidade. A maior parte dos que ainda se conservam são dos séculos XVIII e XIX e são construídos em pedra ou madeira. Assentes em estreitos pilares, minimizando o contacto com o solo, os espigueiros serviam para armazenar e proteger os cereais. Por isso, não deixa de ser curioso que uma vila orientada para as atividades pesqueiras tenha tantos espigueiros, ainda por cima quase dentro de água... Causa alguma estranheza esta quase fusão entre o mar e o rural. A visão de tantos espigueiros quase dentro de água é, no mínimo, bizarra.
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De resto, Combarro é um exemplo único de arquitetura popular galega, cujos principais elementos são as suas casas marinheiras, os espigueiros e os cruzeiros. Cruzeiros que abundam na Galiza e que encerram um caráter simbólico sagrado e uma função protetora. A configuração do conjunto histórico da vila, que parece ter parado no tempo, é muito peculiar, já que se ergue sobre a ria, para a qual confluem as suas ruelas estreitas repletas de casinhas de pedra, localizando-se as terras de cultivo na parte de trás do povoado. É, de facto, muito bonito! Para bem receber os turistas, que ali são muitos, há um conjunto de pitorescas lojinhas muito engraçadas e coloridas, bem como um contínuo de agradáveis esplanadas mesmo ali à beira ria, onde se podem experimentar os belos petiscos típicos, a maior parte, vindos do mar, regados pelo albariño, em cuja região nos encontramos. Nota máxima para Combarro, pois claro.
Depois de uma voltinha por aquelas bonitas ruas, era chegada a hora de avançar. Era também chegada a hora de enfrentar a parte mais dura da etapa. Da etapa e de todo o Caminho! É nestas alturas que as nossas pernas têm de mostrar aquilo que valem... Uma subida que se iria prolongar por cerca de sete longos quilómetros, com a agravante de não haver sombras e de o dia estar particularmente quente.
O quilómetro inicial foi o mais difícil, com uma pendente a rondar os 20 %. É obra! Os restantes foram mais suaves. Em jeito de recomendação, convém levar-se bastante água, pois apenas passamos por um 'posto' de abastecimento. Ainda por cima, até Armenteira, a envolvente é pouco interessante. O único ponto de interesse é o Miradouro do Loureiro, a 270 metros de altitude, que nos oferece uma bonita vista panorâmica da Ría de Pontevedra, com destaque para a enseada A Seca-A Reiboa, onde se encontra uma importante zona de viveiros de bivalves.
Depois de uma subida, há sempre uma descida e foi assim que chegámos a Armenteira, onde nos mimámos com um merecido lanche numa esplanada que nos soube a paraíso.
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Agora, sim, podemos ir apreciar o Mosteiro de Santa Maria de Armenteira, uma magnífica jóia cisterciense da Galiza, fundado em 1168, ainda que a sua origem, pensa-se, remonte ao século VI. Ainda hoje é habitado por freiras, as quais, todos os dias, às 19 horas, protagonizam aquele que será, talvez, o apontamento mais espiritual e emotivo deste Caminho. Uma celebração cantada que termina com a Benção do Peregrino, proferida em várias línguas. Um momento que, penso eu, não deixa ninguém indiferente, independentemente das crenças religiosas (ou ausência das mesmas).
"Que a luz e o amor de Deus abençoem e dirijam os teus passos / Que os caminhos se abram ao teu encontro / Que abras o teu coração ao silêncio. E guardes com gratidão as lembranças das coisas boas / Que Deus te leve pela mão até aos braços de Santiago / E que regresses à tua casa cheio de luz e alegria."
O dia terminou com um agradável jantar, em que não faltou o típico caldo galego, no simpático alojamento, situado a cerca de dois quilómetros de Armenteira, mas com transfer assegurado pelo simpático anfitrião, seja à chegada, seja para a partida do dia seguinte, bem como para ida e volta ao mosteiro a quem queira assistir à benção do peregrino.