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Caminhos Mil

"É preciso voltar aos passos que foram dados, para os repetir, e para traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre. O viajante volta já.", José Saramago

Caminhos Mil

"É preciso voltar aos passos que foram dados, para os repetir, e para traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre. O viajante volta já.", José Saramago

29.01.24

PR7 GVA | Rota do Rio Torto | Gouveia


Emília Matoso Sousa
Data | 3 abril 2022
O percurso | Circular | 11 Km (fizemos 16 Km) | 196 m desnível acumulado | Moderado
Localidade | Gouveia, distrito da Guarda
 

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O percurso de hoje começa 'no período Neolítico', ou seja, junto a uma anta, a da Pedra da Orca, também conhecida como Anta do Rio Torto, por se situar na freguesia com o mesmo nome. O monumento, de dimensão considerável, é visível quando se circula na Estrada Nacional N17, pelo que facilmente se pode visitar sem necessidade de qualquer desvio. Curiosamente, e à semelhança de muitos outros monumentos desta natureza, encontra-se numa propriedade privada, porém de livre acesso.

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Vamos andar em torno de Rio Torto, uma localidade que foi buscar o nome ao rio que ali corre. Terá sido também, certamente, graças ao rio que aquele território foi ocupado e povoado. A existência de poldras e de uma ponte medieval dá-nos a indicação de que, desde cedo, se concretizaram formas de o atravessar. A paisagem humanizada, onde não faltam vinhedos e olivais, identifica, desde logo, o modo de vida de quem por lá foi ficando. 
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Dirigimo-nos à povoação, a cerca de um quilómetro de distância, por uma estradinha muito bonita. Vale a pena percorrer as ruas de Rio Torto. Uma aldeia tipicamente beirã, com casas de arquitetura vernacular e tradicional onde não falta granito e onde ainda são visíveis as antigas e caraterísticas construções de dois pisos, em que o piso térreo era reservado para alojar animais (as lojas, como ali se diz) e para arrumos. Entre o seu casario, destaca-se o Solar da Família Boffa Molinar. Um bonito solar dos finais do século XVIII, de construção robusta e austera, a que não falta uma capela, datada de 1748. Atualmente, funciona como Turismo de Habitação.

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Mais à frente, uma pequena propriedade agrícola abandonada, e em ruínas, é testemunha de tempos mais dinâmicos naquela aldeia, atualmente menos populosa, fruto da saída dos mais jovens para os centros urbanos. É o preço da interioridade... 

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Prosseguimos o nosso percurso, passando pela ponte medieval e dirigindo-nos ao Monte Aljão, sempre por caminho ascendente, ora florestal, ora rural, até chegar a uma altitude que nos mostra um horizonte a perder de vista.  

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O cenário que nos espera lá em cima é magnífico. As giestas cobrem a paisagem de branco, como se de neve se tratasse, e formações graníticas vão surgindo de todo o lado, desde lajes imensas até grandes blocos de formas variadas. Acabámos por não encontrar vestígios da necrópole medieval nem as sepulturas rupestres que sabíamos existir por ali. Frequente e infelizmente, estes vestígios históricos não se encontram assinalados, tornando-se difícil localizá-los, escondidos que estão pela vegetação. Ainda assim, não damos os nossos passos como perdidos, pois a grandiosidade daquela paisagem valeu cada centímetro daquela cansativa subida. 

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Ficamos por ali alguns momentos a apreciar aquelas maravilhosas 'imagens' enquadradas pela omnipresente Serra da Estrela. As cores da primavera dão-lhe um toque quase irreal. No regresso à aldeia, depois de atravessar uma zona de floresta, ainda vamos espreitar umas poldras, por sinal muito bem torneadas e bonitas. É sempre uma aventura experimentar atravessá-las. E foi também com poldras que fechámos o círculo. 

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A paisagem natural e as vistas desafogadas para a Estrela são o ponto alto deste trilho. Na verdade, as cambiantes da paisagem serrana são imensas e a primavera dá-lhe notas fotográficas. Esta é, aliás, a melhor altura para fazer este trilho, pois a ausência de sombras em grande parte dos trajetos torna-o desaconselhável para a estação mais quente que, naquela zona, não é suave. 

No regresso a casa, ainda houve tempo para um 'saltinho' à Ponte das Cantinas, uma ponte muito peculiar só com um arco que liga (ligava) as duas margens da ribeira de Cativelos, afluente do rio Mondego, no concelho de Gouveia. Tanto quanto conseguimos saber, não há certezas quanto à sua antiguidade, mas poderá ser romana. Apresenta sinais de degradação e de alguma fragilidade e a proximidade de ruínas de um moinho revelam que, num passado remoto, terá havido por ali muito vaivém. O acesso não é óbvio nem fácil, pois reclama uma descida pouco agradável e tomada por vegetação. Mas uma vez chegados à margem da ribeira, que ali corre selvagem sobre rocha, a nossa surpresa não podia ser maior. A água a rodopiar e a enrolar-se nas várias marmitas de gigante ali 'esculpidas' e as pequenas poças de água cristalina são um espetáculo verdadeiramente deslumbrante. Mais um recanto incrível, ali mesmo ao lado da estrada N232, que vai de Gouveia para Mangualde, a reclamar maior atenção. Quem diria?

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18.01.24

PR2 GVA Caminhos de Fé | Gouveia


Emília Matoso Sousa
Data | 15 abril 2022
O percurso | Circular | 16 Km (fizemos 20 Km) | 420 m desnível acumulado | Moderado
Localidade | Gouveia, distrito da Guarda
 
Sem necessidade de raciocínios rebuscados, facilmente se deduz qual o tema do percurso que hoje nos vai dar a conhecer as localidades de Aldeias, Mangualde da Serra, Moimenta da Serra e Vinhó, e respetivas envolventes, marcadamente rurais. A fé. A fé, tão enraizada na religiosidade e no modo de vida daquelas populações beirãs ao longo dos séculos e que fez nascer um património religioso rico e variado que se nos mostra a cada passo. Contas feitas, são dez capelas, sete alminhas, cinco igrejas, uma ermida, um convento e um antigo colégio jesuíta os exemplares que vamos encontrar durante o nosso percurso. É obra! 
 

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À semelhança de tantos outros trilhos, também este nos vai conduzir por caminhos antigos. Caminhos utilizados, há muitos anos, para a deslocação entre aldeias. Sem estradas e sem carros, a não ser os puxados por animais, ainda assim, as pessoas tinham de realizar as suas transações comerciais e isso implicava sairem das suas terras. Esses caminhos são muitas vezes, à luz dos nossos padrões atuais de apreciação, desconfortáveis, inóspitos e, até, perigosos, mas os seus traçados correspondem ao melhor que era possível, tendo em conta a morfologia dos terrenos. 

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Feitos de muito sobe e desce e a 'rasgar' atalhos sempre que possível, a verdade é que estes são caminhos mais curtos do que as estradas entretanto construídas. Porém, de um modo só podem ser calcorreados a pé. Eram também usados pelos romeiros nas suas movimentações até aos locais dos seus santos de devoção. Quantas promessas terão por ali passado? As romarias são, aliás, uma prática ainda hoje muito comum naquela região do país, como o são também as muitas lendas e mistérios associados àqueles lugares. Sem dúvida, um património cultural imaterial riquíssimo que atrai cada vez mais pessoas de fora, em busca de experiências diferentes, de tradição e de autenticidade.
 
Iniciamos a caminhada em plena cidade de Gouveia, no Monte do Senhor do Calvário, junto à capela com o mesmo nome. Outrora conhecido como o Monte Ajax (nome da ribeira que atravessa a cidade) é, porventura, um dos principais pontos de devoção da região. É a este santo que são consagradas as festas anuais de Gouveia, em agosto, um evento que se realiza desde 1838 e que, na atualidade, traz milhares de pessoas a esta cidade da Beira Alta. Vencida a escadaria que nos leva ao topo, é lá que se situa a capela setecentista, bem como duas capelinhas que representam a Agonia de Cristo no Horto e o Beijo de Judas, dos passos da paixão de Jesus. Um local muito apreciado e com muito significado para os crentes, seguramente.

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Aproveitamos para apreciar a paisagem que, daquele 'camarote' onde nos encontramos, é imensa. A plataforma do Mondego está ali toda ao alcance do nosso olhar.   
 
Descemos a escadaria e os primeiros passos dão-nos a conhecer algum do património edificado gouveense mais emblemático. Apercebemo-nos de que há muito para ver e percorremos algumas ruas em busca de ideias para uma próxima visita. A Casa da Vivência Judaica, o Museu da Miniatura Automóvel, o Museu Municipal de Arte Moderna Abel Manta (instalado no antigo Solar de Vinhó e Almedina, aqui se encontra o espólio deste pintor natural de Gouveia), a Biblioteca Vergílio Ferreira (instalada no antigo Solar dos Serpa Pimentel de Gouveia), ou o roteiro de Vergílio Ferreira (natural de Melo, freguesia gouveense, e alvo de várias homenagens na cidade) são algumas das propostas. O próprio edifício dos Paços do Concelho encerra vários capítulos da história da cidade, tendo sido inaugurado como colégio de Jesuítas (1739), e chegado a ser utilizado como quartel militar e hospital militar durante a Guerra Peninsular (1809). Tudo isto merece uma visita com mais tempo. Fica registado.

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Seguimos viagem e começamos a deixar Gouveia para trás. A paisagem começa a 'ruralizar-se' à medida que vamos subindo rumo à encosta da Serra da Estrela e, após cruzar a estrada N232, por passagem aérea, entramos na freguesia de Aldeias. Tenho um fascínio particular por trilhos que atravessam aldeias, porque nos dão uma ideia muito próxima de como é a vida naqueles lugares aparentemente tão remotos e tão 'à mercê' dos caprichos, neste caso, da serra. E se hoje o conceito de 'remoto' é relativo, por via da proximidade que o desenvolvimento e as tecnologias vieram proporcionar, tempos houve em que estas pequenas localidades rurais eram pequenos mundos ainda mais isolados de tudo e de todos. Em Aldeias, ficamos a saber, através de uma placa de homenagem, que Irene Lisboa passava ali férias e ali escreveu o livro Crónicas da Serra. Da Estrela, naturalmente. 

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Uma pensadora fora do tempo
Nasceu em Arruda dos Vinhos no final do século XIX, em 1892. Foi pedagoga, tendo feito a sua formação na Suíça, em França e na Bélgica. Foi um espírito independente, tendo sido impedida, pelo regime salazarista, de colocar em prática os seus conhecimentos e de exercer a sua função de professora primária. Foi escritora, ensaísta, poetisa e cronista, tendo sido censurada e obrigada a recorrer a pseudónimos. Terá sido, acima de tudo, uma mulher corajosa num tempo em que qualquer pensamento 'fora da caixa' era penalizado. Irene Lisboa nasceu, claramente, na época errada. Ou não, já que a evolução só acontece quando há espíritos disruptivos. Passava férias em Aldeias. Foi ganhando a confiança das pessoas, ou do "gentio serrano", como ela 'respeitosamente' dizia, observou e ouviu atentamente toda aquela paisagem e todo aquele modo de vida das décadas de 40 e 50, duro e rude, e escreveu sobre todo esse encanto e desencanto. Sobre a ruralidade, sobre a pobreza, sobre as vicissitudes da vida daquele povo. "Aqui passava férias, percorrendo os caminhos da serra, montes e vales, conversando com a gente da nossa terra." Para a posteridade fica a justa homenagem, o orgulho e o agradecimento de um povo. 
 
Em lugar de destaque, e protegida por um carvalho secular, a igreja matriz de S. Cosme, de fachada simples, mas digna, relembra-nos que aquele é um caminho de fé. Mais à frente, outra homenagem "por dever de gratidão". Desta vez, "aos que pela mão do destino ou opção do viver, partiram, levando saudades, a vontade, o querer, de poder voltar um dia". Neste Portugal profundo, os emigrantes nunca são esquecidos! Aliás, em Aldeias, ninguém é esquecido, como o prova uma escultura de granito que homenageia "todos os aldeenses". Já na estrada, uma imponente fonte, a Fonte do Tio Martinho, convida a uma pausa refrescante. A primavera trouxe calor e a vista é panorâmica e bonita. Há que desfrutar.

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Até Mangualde da Serra, o caminho é feito por estrada. Uma estrada quase sem trânsito e com um enquadramento muito pictórico. Os céus azuis pontilhados por flocos de nuvens brancos oferecem-nos verdadeiros postais ilustrados.
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Chegamos à capela da Nª Srª do Monte, já em terras de Mangualde da Serra. O seu posicionamento é um autêntico miradouro para paisagens deslumbrantes. A capelinha é simples e tem por companhia três majetosos carvalhos seculares. Os bancos e mesas de pedra, para usufruto dos visitantes, convidam a nova pausa. Aquele é também um local de romaria anual, em devoção à Santa. Consta que ali apareceu a imagem de uma Virgem. Naqueles tempos era comum o aparecimento de santos e santas, ou as suas imagens, nestes sítios ermos. E tantas vezes lá apareceu que a população decidiu construir a ermida, que se transformou em local de culto. Desta forma se justifica a proliferação de ermidas e capelas nestas localizações tão improváveis. Não há dúvida de que as lendas e outras narrativas fantásticas constituem um património valioso na história de um povo.

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Até agora tínhamos vindo a subir, pelo que estava a altura de começar a descer na direção de Moimenta da Serra onde, no centro da aldeia, passamos pela ermida da Nª Srª do Porto, também erguida em 1641 para assinalar o sítio onde apareceu mais uma Nossa Senhora. 

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Até Vinhó, a paisagem é predominantemente rural, com vinhas, olivais e terras delimitadas pelos sempre bonitos muros de pedra antigos. Neste trajeto há um troço em que a vegetação envolvente é de tal forma frondosa que quase nos sentimos arredados de qualquer tipo de civilização. A Igreja Matriz de Vinhó recebe-nos do alto da sua imponência. Classificada como Imóvel de Interesse Público, o edifício foi fundado em 1567, como igreja do Convento das Freiras Clarissas, dedicado a Madre de Deus. O convento fechou em 1834, ano da extinção das ordens religiosas, tendo sido demolido, restando pouco mais do que a igreja. Reza a lenda que por ali passou uma freira com dons de santidade, a Tia Baptista, cujas cantigas de trabalho e devoção ainda por ali ecoam. Provavelmente, é por terem ficado registados num manuscrito que está no Museu Arte e Memória.   

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Já próximo de Gouveia, passamos ainda pelo, também extinto, Convento de São Francisco, hoje propriedade privada. É um edifício bastante interessante e com uma localização e enquadramento privilegiados, mas a precisar de obras de reabilitação. Não é visitável.  

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Estamos novamente no miolo urbano de Gouveia, onde chegamos sob um calor já intenso e a reclamar uma bebida fresca. A tarde terminou na sombra de uma esplanada na companhia de alguns amigos que, casualmente, ali encontrámos.
09.01.24

PR3 NLS Percurso Caldas da Felgueira


Emília Matoso Sousa

6 abr 2022
12 Km | Circular | 294 m desnível acumulado | Fácil
Localização: Caldas da Felgueira, localidade localizada no concelho de Nelas, distrito de Viseu.

Boas águas, bons ares, boas vistas...

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Hoje, vamos andar por Caldas da Felgueira, não para ir a águas, mas para apreciar a beleza natural do seu território, com passagem e paragem em alguns momentos interessantes da sua história. No entanto, se o objetivo da nossa visita fosse usufruir dos benefícios das águas termais que aqui são famosas, certamente não nos arrependeríamos. A imponência dos edifícios do Grande Hotel e da Estância Termal evidenciam o charme de uma época em que a boa tradição hoteleira apostava numa arquitetura de traços clássicos e austeros. O enquadramento privilegiado faz o resto. É que a localidade está situada em pleno vale do Alto Mondego, emoldurada pelas serras da Estrela, Buçaco e Caramulo. Boas águas, bons ares, boas vistas... que mais podemos desejar?

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Cura, Bem-Estar, Equilíbrio e Beleza. O poder das águas...
 
As das Caldas da Felgueira prometem curar maleitas de foro respiratório, mas também músculo esqueléticas e reumáticas. Atualmente, na era dos SPA, as tradicionais termas tiveram de complementar a sua oferta com programas orientados para o bem-estar, beleza e estética. Modernização oblige! Mas só em meados do século XIX, em 1867, após devidamente analisadas e apresentadas na Exposição Universal de Paris, é que a importância terapêutica destas águas foi reconhecida. A partir daqui, foi, então, possível, fundar a Companhia das Águas Medicinais das Caldas da Felgueira, a que se seguiu, em 1886, o nascimento da Nova Companhia do Grande Hotel Club das Caldas da Felgueira.

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É daqui que partimos para o nosso trilho, não sem antes registar, mentalmente, a intenção de, um dia, experimentar aquelas terapias.    
A poucos passos do complexo termal, passamos pela antiga Pensão Maial, hoje abandonada, mas com um passado que lhe confere estatuto de edifício histórico. Isto porque após o final da II Guerra Mundial deu acolhimento a refugiados alemães e familiares de altas patentes nazis, com tudo pago, reza a história, pela polícia política portuguesa, vulgo PIDE, que tão más memórias a todos deixou.

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Na verdade, foram muitos os alemães que, nessa altura, se recolheram na Beira Alta, tendo esta pensão recebido mulheres alemãs e os respetivos filhos. Compreensivelmente, a situação não foi bem recebida pelas povoações locais, massacradas e amarguradas pelas dificuldades e sacrifícos impostos pela guerra. Que sentido fazia acolher os responsáveis por tamanha calamidade? O descontentamento foi grande e há relatos de que só não se chegou a 'vias de facto' por se tratar de mulheres e crianças. Com o passar do tempo, os ânimos foram acalmando, mas restou sempre uma certa estranheza relativamente a este apoio dado ao 'inimigo', até porque Portugal tentou sempre manter uma postura de neutralidade durante este conflito de abrangência mundial. Histórias da história que nos vão surpreendendo nos recantos menos prováveis...
 
Seguimos caminho para, logo de seguida, entrar na povoação, que atravessamos antes de, já por caminhos florestais, iniciar a subida da serra. As vistas começam a tornar-se amplas e a localidade começa a transformar-se numa mancha de casinhas no meio do vale.

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A floresta é, aqui, maioritariamente composta de eucaliptos e alguns pinheiros bravos. A aproximação à ribeira do Vale do Gato altera este panorama, oferecendo-nos uma refrescante mata onde predominam os carvalhos, o que torna este trajeto muito mais agradável do que o anterior. Nada se compara à beleza de uma floresta de árvores autóctones! À beleza e à frescura que, naquele dia, era particularmente bem-vinda, pois as temperaturas já começavam a aquecer. 

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Atravessada a ribeira, e sempre a subir, dirigimo-nos ao Folhadal, outra freguesia de Nelas, cuja paisagem é marcada por campos predominantemente agrícolas. Até lá, o esforço da subida vai sendo compensado pela abertura de perspetivas panorâmicas cada vez mais amplas e bonitas. O amarelo e o branco das giestas já começa a colorir a paisagem.
 
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Junto à localidade, espera-nos a Laje Grande, cuja dimensão justifica o nome. Que massa de pedra imensa! Não restam dúvidas de que, por ali, o granito é rei. Subimos ao topo da laje, que funciona como miradouro, e as vistas a que temos acesso são indescritíveis.
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Encontramo-nos a 395 metros de altitude, num território que, juntamente com os outros que a nossa vista alcança, se situa na chamada Plataforma da Beira Alta ou do Mondego. Sim, o vale do Mondego está ali bem perto. Uma superfície ampla 'esculpida' pelos rios Dão, Mondego e seus afluentes, que se prolonga desde a Serra da Estrela até à do Caramulo. Ficamos por ali alguns minutos a contemplar aquela beleza imensa. Em silêncio, pois nestas alturas tudo o que se disser nunca será suficiente. 
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Iniciamos a descida até ao vale do Mondego, fazendo uma paragem junto à Orca do Folhadal, um sítio arqueológico que terá a sua origem no Neolítico Antigo (c. 5500-4000 a.C) e que terá sido alvo de nova ocupação já durante o Neolítico Médio (c. 4000-3600 a.C.).
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O dólmen está bastante destruído, mas são bem visíveis os sinais de que, lá muito atrás, houve ali uma pequena aldeia de cabanas elipsoidais. Estes locais causam-me sempre alguma perplexidade, pois se já é difícil imaginar que, na atualidade, alguém consiga viver naqueles territórios ermos e pedregosos, como seria há milhares de anos... 
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A descida leva-nos até uma zona onde predomina a vinha. Hectares e mais hectares de vinhedo que fascinam pela geometria do seu arranjo. Placas informativas identificam as castas. Jaen, Alfrocheiro, Encruzado, Tinta Roriz, Touriga Nacional... As castas principais dos vinhos do Dão, pois então.
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Aproximamo-nos cada vez mais do Mondego, até o ladear e, de vez em quando, chegar próximo das suas águas. Antes de entrar novamente nas Caldas da Felgueira, ainda vamos apreciar a ponte centenária sobre o rio que, curiosamente, mesmo no meio, faz a divisão entre os concelhos de Nelas e Oliveira do Hospital. 

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Reservamos os momentos finais para espreitar a Ribeira da Patanha e a sua cascata. Infelizmente, no local onde nos encontravamos, o acesso é feito através de propriedade privada (do hotel), pelo que apenas conseguimos um vago vislumbre...
 
O dia terminou com a degustação de produtos regionais num estabelecimento local que nos surpreendeu pela qualidade e variedade da sua oferta. O proprietário, em tempos profissional na indústria mineira local (Urgeiriça), e pessoa muito ativamente envolvida na causa da (des)contaminação do urânio, proporcionou-nos algumas histórias muito interessantes sobre o tema. Conversa puxa conversa, já se sabe, e após ficar a par da minha proveniência de terras do Alentejo, eis que o nosso interlocutor se declara grande conhecedor e apreciador do cante. E não é que, de repente, começou a cantar várias 'modas'? Mais, fez parte da comitiva que levou  à sede da sede da UNESCO, em Paris, a candidatura do cante alentejano a património imaterial da humanidade. Mas a maior surpresa surgiu quando cantou o hino dos mineiros, que nós conhecíamos e tínhamos como certo que o mesmo era exclusivo dos mineiros de Aljustrel. Estamos sempre a aprender...

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